Mas será que estava? Somos criticados, nós os cristãos, por mantermos padrões, seguirmos doutrinas e dogmas. Mas o cristianismo vivo e dinâmico nos leva para muito além dos dogmas, aliás, chega a chamar os dogmas de idolatria.
Este cristianismo nos incentiva a “conhecer e prosseguir conhecendo” (Oséias 6:3), numa busca incessante e sincera: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscares de todo coração” (Jeremias 29:13). Este conhecimento também além de dinâmico deve gerar em nós algum tipo de transformação pessoal. Não é meramente intelectual, mas é vital, humano, entra fundo em nós gerando mudanças constantes.
Só é capaz de buscar aquele que não tem. Para que possamos ser motivados a continuar conhecendo, temos que reconhecer que não sabemos. Este é o estado de alma da metamorfose ambulante. Estou sempre disposto a mudar através do conhecimento que adquiro. Metamorfoseio-me constantemente numa nova pessoa, através de mais revelação da pessoa de Deus. Quanto mais me aproximo d’Ele mais preciso conhecê-lo e ser transformado.
A isto se referiu Carlos Finney, grande avivalista do século XIX, quando dizia que devemos nos converter todos os dias. O que conheço de Deus hoje, não é o suficiente, preciso mais, ainda que este conhecimento novo venha questionar idéias anteriores, desafiar meus conceitos, ou gerar novos paradigmas de comportamento na minha vida.
O cristão não dogmático (soa como uma contradição de termos para você? Pois não é…) não é um cristão sem convicções profundas. Mas ao invés de valorizar em primeiro lugar a doutrina a respeito de seu Deus, ele valoriza seu relacionamento com o próprio Deus. O Deus vivo, dinâmico, que muda, não em caráter e valores morais, mas que muda na sua estratégia de confronto com o ser humano, na dispensação da sua presença, na quantidade de revelação que derrama, Deus que encobre coisas (Deuteronômio 29:29), mas que as revela aos justos (Daniel 2:47). O Deus que vai “brilhando mais e mais” na nossa vida, “até ser dia perfeito” (Provérbios 4:18).
O preço desta vida de metamorfose é muitas vezes uma certa insegurança. Para onde estou indo? Será que isto é certo? É tão fácil se segurar em convenções, que todos o fazem, principalmente os não cristãos… O próprio Raul tinha dogmas. Eram com certeza, os não-não. – Não há Deus, não há caráter humano que preste – não há nada bom no velho, no “establishment”, e com certeza não há nada de bom que se possa esperar no novo também…
A diferença de um cristão e de um pseudo livre-pensador é que o cristão sabe que é limitado, que conhece apenas parte e de que necessita de uma âncora além de si mesmo para se segurar. Esta âncora não é um dogma doutrinário, mas o relacionamento com uma Pessoa, amorosa, sensível e divina.
O cristão deve a esta Pessoa submissão e humildade. Ele tem que trazer sua mente escravizada a esta pessoa: “trazendo cativo todo pensamento à pessoa de Cristo” (II Coríntios 10:5). Mas o intelectual-liberal, no entanto, não “deve” nada a ninguém. Ele é seu próprio Deus. Sua âncora é sua razão e nela está seu orgulho. “Firmado com os pés no estribo de sua própria razão” (Provérbios 3:6-7), ele nunca vai além de si mesmo, anda em círculos ao redor de seus dogmas pessoais, e vive cego pela idolatria da razão. Este não é capaz de se metamorfosear nunca, porque não há mudança possível para alguém cuja única referência são suas próprias idéias…
Ah, Raul, quão enganado você estava…